Crônicas: Assalto? (Parte I)

As sacolas pesavam em minhas mãos. Tendo estado na rua desde cedo, eu já havia cansado de caminhar. Mas agora, estava quase terminando. Finalmente.

Por isso, ansioso, andava a passos rápidos, as compras balançando alegremente a meu lado, procurando chegar ao ponto de ônibus o mais depressa possível.

Assim que virei a esquina e ele entrou em meu campo de visão, senti-me aliviado: estava quase vazio, então eu poderia esperar o ônibus sentado. Com um meio sorriso para mim mesmo, me pus em direção a ele, as pernas gritando em desespero por algum repouso.

Antes que pudesse dar mais do que alguns passos, porém, sobressaltei-me ao ouvir a voz de um homem vindo de trás de mim:

– Ei, amigo, você tem um cigarro?

Girei nos calcanhares para encará-lo. O cara estava em situação deplorável. Parecia um morador de rua.

– Não… eu não fumo, desculpe.

Voltei-me para o ponto de ônibus e recomecei a caminhar apressado. Entretanto, alguma coisa me fez parar alguns passos adiante e me virar para o homem novamente. Ele continuava parado me encarando.

– E alguma moeda, você tem?

Meio incomodado, abri a boca e o “não tenho, deixe-me em paz!” já começava a se formar em meus lábios quando lembrei de algumas moedas que havia recebido de troco em uma das lojas onde havia comprado.

– Eu… sim, só um segundo.

Pousei as sacolas a meus pés e procurei a carteira, dando olhadelas para o indivíduo. Sem muita cerimônia, tirei dali alguns reais que tinha em moedas e entreguei para ele. Tal foi a alegria do homem ao recebê-las que ele deu uma gargalhada meio rouca antes de se afastar, falando:

– Deus o abençoe, amigo! Deus o abençoe!

Realmente, pois estou precisando.

Rindo, tornei a pegar as muitas sacolas e me voltei uma última vez na direção do ponto de ônibus. Qual minha surpresa, no entanto, quando, com um barulho de freios muito conhecido, vi o próprio parando no ponto e abrindo as portas para os transeuntes. Gelei.

Já que ainda estava do outro lado da rua, apertei o passo. De olho no semáforo, uma torcida frenética começou em minha mente para que ele fechasse a tempo.

Como de fato havia poucas pessoas no ponto, o ônibus não demorou a fechar as portas e logo se preparou para arrancar. Um tanto desesperado, tentei acenar para ver se o motorista me veria. Não deu. Uma das sacolas, inclusive, deslizou de minha mão direto para o chão.

Xingando o morador de rua que me pedira dinheiro, o motorista do ônibus e a fabricante da sacola com todas as minhas forças, me abaixei para recolhê-la. Quando levantei, o ônibus já ia longe.

Bad timing.

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