Contratos #2: O Diabo à solta

Edwin Hubbs não tinha culpa de ser quem havia se tornado.

Seus olhos negros como o céu aveludado que o cercava podiam muito bem assustar, ele sabia disso. Na verdade, havia gente que o julgava ser o Diabo em pessoa.

Ele não negava.

Afinal, havia cometido pecados imperdoáveis em sua vida. Tirara a vida de muitos homens, de outras tantas mulheres e até mesmo de algumas crianças. Dentro de si, onde antes houvera um coração pesaroso pelos atos que fora forçado a cometer, agora encontrava apenas o vazio. O frio e gélido vazio. O morno e sufocante vazio.

Já o questionaram sobre o porquê de não ter posto um fim àquilo tudo. Ele próprio já se questionara a respeito. Mas a questão é que, apesar de todos os apesares, ele ainda tinha algo por que lutar. E enquanto tivesse, lutaria com unhas e dentes. Sempre fora assim.

Agora no interior da pequena casa, que mais lembrava uma cabana, Hubbs estava mais tranquilo. Não que não achasse que os outros fossem vir em seu encalço, mas decidira que esperaria por eles da melhor forma possível. Afinal, talvez não fosse lucro adiar os acontecimentos daquela noite para sempre.

Sentado em uma cadeira de balanço, ele colocou os pés sobre a mesinha de ocasião que havia em frente. Entrelaçou os dedos na parte de trás da cabeça e ficou se balançando displicentemente.

Se for para matarem o Diabo, pensou, que Ele morra com a honra que ainda Lhe resta.

O motorista do jipe odiava florestas.

Além de todos os insetos insuportáveis e monstros voadores que apareciam durante a noite, ele não gostava da sensação de estar sozinho em meio ao desconhecido. Por algum motivo, o céu aveludado e as copas farfalhantes das árvores provocavam-lhe arrepios em vez de calmaria ou paz interior. Podia jurar que estava sendo observado.

Ali onde estava, a única luz vinha de dentro do carro, do pequeno computador de bordo que havia. O motorista não tinha certeza se preferia assim ou se deveria quem sabe acender os faróis do veículo, para dar a qualquer possível predador a sensação de perigo.

No fim das contas, talvez fosse mesmo mais prudente tentar passar despercebido naquele lugar.

Jogando os braços por cima do encosto do banco, ele abraçou a nuca e esticou as costas, ainda sentado. Depois, lançou um olhar para o computador. A foto do homem, encimada pelas letras que piscavam e o identificavam como um terrível criminoso, fez com que o motorista tivesse um arrepio involuntário.

Xingando em voz baixa, ele apanhou o equipamento e tocou na tela, a fim de abrir uma nova página na internet.

Então, com um olhar culpado para os lados, ele começou a digitar o endereço de um site adulto.

Foda-se, preciso mesmo me distrair.

Quando as miniaturas apareceram na tela, ele clicou em uma delas sem pensar muito e abaixou o volume do dispositivo. Soltou um assovio.

Agora sim!

Com dificuldade, abriu o zíper da calça. Porém, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, um ruído ensurdecedor ecoou dentro do jipe, fazendo com que o homem derrubasse o computador nos seus pés.

– Câmbio, Marshall, você está aí?

Filhos de uma puta!

Levando a mão até o comunicador que utilizava preso no colete, ele apertou e respondeu:

– Samuels? Sim, estou na escuta.

– Ótimo. Chegamos ao rio que o sargento comentou, mas de fato nenhum sinal do indivíduo. Estamos reportando que vamos tomar um caminho de volta, mas talvez demoremos mais para chegar porque quero aproveitar para checar um pouco mais ao sul.

E precisava me avisar, filho da puta?!

– Certo, obrigado por avisar! Estarei repassando para o sargento assim que ele entrar em contato!

– Ok.

– Tomem cuidado para voltar.

– Pode deixar. Câmbio.

Quando a linha emudeceu, Marshall recostou-se no banco do jipe. Resignado, fechou os olhos por alguns instantes. Pelo menos agora o seu medo passara.

– Que se foda, eu vou fumar. – desacoplou seu rádio do colete e saiu do carro, batendo a porta.

A alguns metros dali, um homem careca parara de súbito ao ouvir o som da porta batendo. Parcialmente iluminado pela lua, no meio das árvores, ele se virou com uma expressão de interesse no rosto.

Com suavidade, engatilhou sua pistola por baixo do casaco e seguiu silenciosamente na direção do som, um sorriso frio nos lábios e um brilho mortífero no olhar.

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