Carta aberta a Chester Bennington

Caro Chester,

Confesso que não sei por onde começar. Não sei se devo, primeiro, lhe agradecer, dizer que sinto a sua falta, ou mesmo buscar, através de meras palavras, expressar todo o choque, toda a dor que sua partida causou a mim e a milhões de outras pessoas espalhadas por este mundo.

Não quero narrar a história de como conheci a sua música, de como ouvi a sua voz pela primeira vez, ou qualquer outro desses clichês. Não. Esta é uma mensagem que escrevo, sobretudo, com meu coração, na vã esperança de que, onde quer que você esteja, ela possa lhe tocar, ou, ao menos, aliviar um pouco do vazio, do doloroso vazio com que estou preenchido.

A verdade é que você mudou minha vida. Mesmo sem me conhecer, mesmo sem sequer saber de minha existência, você estava lá. E com seus versos doces, foi capaz de me proporcionar conforto e compreensão. Mas com seus gritos sufocados pela agonia, pela raiva, você também me disse que entendia, que compreendia. Se revoltou ao meu lado.

Por isso, gritamos juntos. Cantamos belas melodias juntos. Em cada nota de cada canção, eu pude encontrar um pouquinho de mim. Cada palavra fria, escrita sem cerimônia no papel, você conseguia trazer à tona com todo o calor, com todo o significado oculto em suas entranhas.

Por estas e outras, eu o considero meu amigo. Mesmo nos dias mais cinzentos e mais sombrios, quando tudo parecia conspirar contra mim e quando eu próprio colocava dúvidas e incertezas no caminho, você me ajudava. Você me motivava. Quando estava caminhando para o fim, redescobria em suas letras o recomeço. A cada vez que o ouvia cantar, soava diferente. Fascinante. Era como várias “primeiras vezes”.

Portanto, devo-lhe um agradecimento especial pelas belas mensagens que passava – e ainda passa, é claro – com suas canções. Seria muita pretensão de minha parte dizer que elas eram únicas para mim, que eu as compreendia como ninguém mais no mundo. Mas não vou negar, acho que na infinidade de meu próprio universo, era assim que eu me sentia. É assim que eu me sinto.

O mais fascinante de tudo é saber que todas as pessoas que, em algum momento, já foram tocadas por suas músicas, por sua voz, também se sentem assim. Não é maravilhoso ser a inspiração para muitas vidas? Um dos motivos pelos quais gente de todos os cantos do planeta pode sorrir ao sentir-se representada por suas palavras? Pois bem, você faz-nos sentir assim. A sua música une, conecta, ajuda. É uma mão amiga em meio à escuridão desconhecida. E você? Bem, você é um ícone.

Ainda não sei muito bem como lidar com a notícia. Na realidade, não sei o que se espera de mim como só mais um fã. Afinal, nunca havia passado por situação semelhante. O que posso dizer é que está sendo difícil, está sendo pesado. Pesado. Mas de novo, a minha dor é apenas mais uma, o meu choque, apenas mais um.

No fim das contas, talvez seja prudente esperar. Deixar que o tempo se encarregue de curar as feridas, de aplacar, mesmo que sutilmente, uma ínfima parte desta grande nuvem cinzenta que se abateu sobre todos nós.

Para ser sincero, Chester, eu gostaria de ter tido uma chance de ajudá-lo. Uma simples oportunidade e nada mais. Sabe, talvez eu tivesse conseguido. Talvez o meu pensamento e as minhas palavras, aliados aos pensamentos e às palavras de cada único ser que você já ajudou, tivessem surtido algum efeito. É. Talvez tivéssemos conseguido. Ou, ao menos, devolvido um pouquinho de tudo o que você já fez por nós.

Eu me lembro, pouco tempo atrás, de ter assistido uma entrevista sua. Em meio às coisas que foram ditas, houve um trecho em particular que me chamou a atenção. Nele, você falava sobre o quão perigoso era ser deixado sozinho dentro de sua mente. Sim, dentro de sua própria mente.

A mente, que, a princípio, é nosso mais sagrado e inviolável lar, também pode ser casa para o perigo, para a dúvida e para a auto sabotagem. Dentro dela, por vezes, nós criamos um monstro que na realidade não está aí; dentro dela, por vezes, nós fazemos de nós mesmos nosso pior inimigo.

Não creio que alguém – além de você – saiba o que o levou a nos deixar, Chester, mas tenho certeza que você foi forte até o fim. De novo, não quero ser pretensioso ao ponto de achar que compreendo (ou que, em algum momento, já compreendi) os pensamentos de alguém tão grandioso quanto você, mas sinto que devo lhe dizer que somos parecidos em algumas coisas.

Eu entendo a sensação de lutar constantemente contra si próprio. Também entendo a facilidade – e a naturalidade – com que você conseguia arrancar sorrisos dos demais, quando na verdade o seu eu estava nublado, confuso e cinzento. Chega a ser engraçado, não é? Quão difícil é sentir quando se está perto de gente que importa pra gente; quando o papel de eu é deixado de lado e substituído pelo de artista, de pai, de marido, de amigo… É uma espécie de trégua para a mente, é a calmaria que antecede a segunda onda de uma tempestade.

Agora, a tempestade passou. Ela o levou consigo, é verdade, e trouxe desespero, lamúria e medo. Mas já não chove mais. Talvez tenha sido uma fuga evitável, jamais saberemos. Mas eu compreendo a bagunça, o tumulto que é ser deixado sozinho dentro dos próprios pensamentos. Por isso, compreendo o que aconteceu.

Em uma de suas canções mais recentes, Chaz, você nos disse que “ao brilhar forte demais, sabemos que nunca iremos durar”. Bem, honestamente, existe algo mais preciso para descrevê-lo? Afinal, você é como as chamas que tão iconicamente carrega nos pulsos. Você é fogo, é água, é uma explosão. É intenso. É paixão. É o grito sufocado do desespero, mas num instante passa a ser a doce melodia da redenção.

Acho que nós dois concordamos que o último álbum já soava como uma despedida, não é mesmo? Como um legado. Talvez o pedido de ajuda já viesse de tempos, apenas expulso em pequenas ondas a cada vez que você abria a boca para cantar. Mas, no fundo, você sabia que o outro Chester continuava ali.

Você lutou bravamente, companheiro. Salvou vidas que, como a minha, o levarão para sempre num lugar especial do coração. Mas mais do que isso, você deixou ao mundo um presente bonito demais para ser esquecido, puro demais para ter sua imagem maculada pelos demônios com quem você dançava.

Não digo que você está em um lugar melhor agora porque não sei se acredito nisso. Mas em meio à tormenta, eu tenho uma certeza: seja em um ano ou um milhão, Chester Bennington, você continuará vivo. Você já o está, na verdade, pois vive em cada vida que tocou, em cada alma que ensinou e em cada única melodia que já cantou.

Obrigado, Chaz. Obrigado, Linkin Park.

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