Diretor iraniano não irá ao Oscar após medidas contra imigração de Donald Trump

O diretor iraniano Asghar Farhadi não irá para Los Angeles na entrega do Oscar, marcada para o dia 26 de fevereiro. A decisão, acompanhada de um comunicado enviado ao jornal The New York Times, foi tomada dias após as polêmicas medidas do presidente Donald Trump em relação à entrada de estrangeiros nos Estados Unidos.

Trump proibiu a entrada de refugiados da Síria por tempo indeterminado e de ademais nações por quatro meses. Imigrantes de países com base muçulmana estão proibidos de entrar nos EUA por três meses. A ordem executiva não os nomeia, mas possuí referências a documentos que citam Iêmen, Irã, Iraque, Líbia, Síria e Sudão.
A Academia classificou como “extremante alarmante” a possibilidade da entrada de Farhadi ser barrada em função de sua nacionalidade. Asghar concorre na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com “O Apartamento”. Em 2012, o diretor levou o prêmio pelo longa “A Separação”.

Confira a íntegra da declaração:

“Sinto anunciar através deste pronunciamento que decidi não comparecer à cerimônia dos Academy Awards junto de meus companheiros da comunidade do cinema.

No decorrer dos últimos dias e apesar das circunstâncias injustas que surgiram para os imigrantes e viajantes de diversos países nos Estados Unidos, minha decisão havia permanecido a mesma: comparecer à cerimônia e expressar minhas opiniões sobre tais circunstâncias na mídia que cobriria o evento. Eu não tinha a intenção de não comparecer ou de boicotar o evento como uma mostra de minha objeção, porque sei que muitas pessoas na indústria americana dos filmes e a própria Academia opõem-se ao fanatismo e extremismo que, hoje em dia, estão tomando lugar mais do que nunca.

Assim que anunciei para minha distribuidora nos Estados Unidos que compareceria ao evento junto de minha equipe cinematográfica, no mesmo dia em que saíram os nomes dos indicados, eu continuei a acreditar que, de fato, estaria presente neste grande evento cultural.

Contudo, parece-me agora que a possibilidade de estar presente vem acompanhada de “mas” e “ses” que não são de modo algum aceitáveis para mim, mesmo se exceções fossem feitas para que eu pudesse viajar. Eu gostaria, portanto, de transmitir através deste comunicado o que eu teria expressado à mídia caso eu viajasse aos Estados Unidos. Conservadores, apesar de suas diferentes nacionalidades, argumentos políticos e guerras, consideram e entendem o mundo de um modo muito semelhante. A fim de entender o mundo, eles não têm escolha que não seja vê-lo como uma mentalidade de “nós e eles”, a qual eles usam para criar uma imagem temerária “deles” e infligir medo nas pessoas de seus próprios países.

Isso não se limita apenas aos EUA; em meu país, os conservadores são iguais. Durante anos, nos dois lados do oceano, grupos de conservadores têm tentado apresentar a seus povos imagens irrealistas e temerárias de várias nações e culturas a fim de transormar as suas diferenças em discórdia, sua discórdia em inimizade e sua inimizade em medo. Instigar o medo nas pessoas é uma ferramenta importante utilizada para justificar comportamentos extremistas e fanáticos, vindos de pessoa com a mente fechada.

Contudo, eu acredito que as semelhanças entre os seres humanos em vários lugares desta Terra, de várias culturas e crenças, superam as suas diferenças. Eu acredito que a causa-raiz de muitas das hostilidades entre as nações de hoje deve ser procurada, que a humilhação recíproca que acontece vem do passado, e que, sem dúvidas, a humilhação que acontece hoje pode ser semente para as hostilidades de amanhã. Humilhar uma nação com o pretexto de cuidar da segurança de outra não é um fenômeno novo na história, e sempre preparou o terreno para futuras inimizade e divisão. Eu, por meio desta, expresso minha condenação das condições injustas forçadas a alguns de meus compatriotas e cidadãos de outros seis países, que tentam, legalmente, entrar nos EUA, e espero que a situação atual não se torne uma crescente divisão entre as nações.”

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